Um balanço do Web Summit

Entre polémicas, uma nova abordagem aos eventos, centenas de oradores com conteúdos breves e um futuro aparentemente promissor, o Web Summit tornou-se no maior evento tecnológico em Portugal. E vai apenas na primeira edição.

O Web Summit chegou a Portugal, cuja primeira edição nacional se realizou esta semana, envolto nalguma polémica.

A saída de Dublin, na Irlanda, onde decorria desde 2010, permitiu-lhe crescer dos 400 irlandeses e três jornalistas internacionais de então para os mais de 50 mil visitantes e 2.000 jornalistas presentes este ano, em Lisboa.

A decisão não foi bem vista – falou-se em objectivos financeiros acima dos patrióticos – mas interessava a países como Portugal ou a Holanda. Este país chegou a ser acusado de espionagem económica: “outra das curiosidades foi quando se descobriu que a Holanda acompanhava passo a passo cada proposta que Portugal fazia, o que levou a que as comunicações entre Paddy Cosgrave, presidente e fundador da Web Summit, e Leonardo Mathias [ex-secretário de Estado Adjunto e da Economia] passassem a ser feitas através de sinal encriptado”, dizia o Público.

A mudança ocorre quando as críticas ao evento também estavam a aumentar, em 2015. Um dos poucos exemplos, com várias declarações anónimas, ocorreu no Tech.eu, que chegou a questionar se o evento não era um “esquema” para se financiar no mundo das startups. Perante o texto “Why I’m not going to Web Summit – in Dublin, Lisbon or anywhere else“, Cosgrave respondeu, explicando como funcionava o modelo de preços para as startups estarem presentes no evento, nesse ano:
– Alpha: pagavam 1.950 euros e tinham direito a quatro entradas;

– Beta (as que já conseguiram financiamento de um a três milhões de euros ou estão no mercado de forma activa): 2.950 euros e quatro bilhetes;

– Start (financiamento acima dos quatro milhões de euros): 3.950 euros e duas entradas, com acesso ao Start Lounge e jantar de investidores.

Em Lisboa, estiveram presentes 1.490 startups de todo o mundo, sendo que 135 estavam inscritas como Start, 270 eram Beta e 1.080 Alpha.

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Serendipidade e notoriedade
Perante “as empresas tradicionais de conferências”, o Web Summit aborda “o desafio” de realizar este tipo de evento “de um ponto de vista técnico e matemático. Desenvolvemos algoritmos que têm em conta quem” é o participante e como “pode beneficiar ao estar num bar ou à mesa com ou numa reunião com” investidores.

As pessoas que vão ao evento “não são nem uma colecção aleatória de participantes nem um grupo manualmente organizado de participantes, mas sim o produto de algoritmos”, nota. “Por outras palavras, fazemos a ‘engenharia da serendipidade‘”, um termo muito usado em Silicon Valley.

Em paralelo, fazem igualmente uma “engenharia de notoriedade”, com lançamentos mediáticos de novidades, a que os políticos aderem.

O Governo português considerou-o “o maior evento de tecnologia do mundo” (não é) e lá anunciou um programa de 200 milhões de euros para investimento de capital de risco em empresas – à semelhança do que o governo irlandês fez em 2013.

Também a cerimónia de abertura do Nasdaq, efectuada em directo do Meo Arena na tarde de 9 de Outubro, replicou o que tinha acontecido originalmente na edição do Web Summit de 2013, em Dublin.

O público adorou porque são também estas coisas que tornam o modelo de organização diferente da habitual conferência de tecnologia. Na edição deste ano, com 677 oradores, para 21 palcos temáticos, notou-se uma ligeireza na abordagem dos temas, a que o modelo é propício.

Tendências rápidas
O Web Summit está formatado para o “networking”, o relacionamento entre criadores de startups a venderem os seus produtos e serviços e investidores interessados em terem o próximo “unicórnio”. Isto numa altura em que “há muito capital” disponível, como referiu Steve Anderson, da Baseline Ventures e primeiro investidor do Instagram.

O resto é conversa e é uma conversa muito ligeira, para quem pretende informar-se sobre as tendências tecnológicas.

Excepto os raros oradores com direito a uma apresentação própria, o formato passa por uma conversa de 20 minutos, moderada normalmente por um jornalista, com duas, três ou mesmo quatro pessoas que pouco tempo têm para explanar uma ideia e muito menos fazer uma apresentação detalhada do assunto que estão a abordar.

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Assim, num apanhado de tendências, breves como as conferências que passaram pelo palco principal do evento, notaram-se as seguintes:
– Inteligência artificial (IA)
93% dos 224 investidores inquiridos no evento “dizem que os governos não estão preparados para a IA no mercado de trabalho”, revelou Cosgrave.

Para Gary Marcus, da Geometric Intelligence, “estamos a uma, duas ou cinco décadas de ter máquinas domésticas” com IA mas, “quando se tiver algo [bem feito], então vai-se replicar em grande escala”, rapidamente.

Quanto ao impacto que a IA possa vir a ter no próprio mercado tecnológico, os investidores ainda olham para a actualidade. Segundo os inquiridos, a maior ameaça à indústria tecnológica são as leis laborais e a regulação.

Mas, com a robótica e a previsível perda de empregos, “há uma mudança de paradigma, o trabalho que é o que nos define agora deixará de o ser”, pelo que “é inevitável” ter um rendimento básico incondicional, “só não sabemos quando”, nota Marcus.

Andrew McAffe, do MIT, considera mesmo que tê-lo “agora seria contraprodutivo” e “demasiado cedo”, embora, seja “uma questão que a sociedade tem de abordar”, remata Marcus.

“Perder empregos para a robótica vai criar um mundo melhor mas, até lá se chegar, vai ser complicado”, antecipou Steve Anderson.

– Bots
“Os bots não são tão bons como se diz mas também não são tão maus”, sintetizou David Marcus, do Facebook Messenger. Esta plataforma está a oferecer a possibilidade aos programadores de terem bots, dentro de determinadas regras, “com uma personalização em grande escala, muito difícil de conseguir antes”.

– Veículos autónomos
“Ainda não há confiança, não estamos preparados”, nota Gary Marcus, enquanto Elmar Frickenstein, do BMW Group, não está preocupado com isso mas com o futuro a cinco anos e com a “transição de responsabilidade” do humano para a máquina.

Nos seis níveis de evolução desde a condução tradicional para esse futuro, os últimos três são o “salto quântico tecnológico” que a indústria automóvel terá de enfrentar. Se os primeiros três são aquilo que conhecemos, os outros passam pelo momento em que o humano está no carro mas raramente conduz (apenas em situações excepcionais ou se quiser), quando está no carro e até pode dormir porque o carro é autónomo e, no último nível, quando o carro nem sequer precisa do condutor lá dentro para se movimentar, nomeadamente para ir estacionar ou sair do estacionamento após ser “chamado” pelo proprietário.

Alguns dos problemas tecnológicos a resolver para se chegar a este cenário? O carro tem de estar sempre online (a tecnologia móvel 5G terá importância neste domínio), ter mapas em alta definição “com uma precisão de centímetros”, e uma enorme quantidade de computação em tempo real para análise de dados, desde onde estão os peões à luz dos semáforos.

– Como foi e será Donald Trump na tecnologia
Para Ann Mettler, antiga jornalista, actualmente na Comissão Europeia, “os media serviam para mediar mas isso já não existe”. Aliás, “se não fossem as redes sociais, Trump não teria sido eleito”. Mas a própria Mettler recorda que, segundo dados do New York Times, “Trump obteve dois mil milhões de dólares de publicidade gratuita” ao estar presente e ser citado nos media tradicionais.

Perante o aplaudido jornalista Owen Jones, do The Guardian, que declarou como “Trump é o maior cataclismo desde a II Guerra” ou que é “uma ameaça existencial”, Bradley Tusk, da Tusk Holdings, reconhece que “Trump não ganhou nas redes sociais”.

Mas Trump pode ter impacto no mundo das empresas tecnológicas. Primeiro, pelo seu interesse em que empresas norte-americanas como a Apple passem a produzir o hardware no país, diminuindo a dependência dos fabricantes chineses. Por outro lado, ao recusar a entrada de emigrantes, estas empresas vão diminuir a contratação de estrangeiros. “Não trazer a inovação global para os EUA será uma crise”, sintetizou Mood Rowghani, da Kleiner Perkins, e “não se está a proteger o espírito da inovação”

– Privacidade
Salil Shetty, da Amnistia Internacional, apesar de considerar que “a tecnologia tem feito muito para sensibilizar para os direitos das pessoas”, no que respeita à privacidade deve existir “um consentimento informado das pessoas” e que esta não deve ser gerida “pelos CEO das empresas”. Em resumo, deve-se ter “o máximo de privacidade com o máximo de responsabilidade”, quando “as coisas estão a avançar muito rapidamente e os governos estão letárgicos”.

Em contraponto, Robert Scoble, do Scobleizer, alerta que desacelerar a inovação tecnológica vai afectar o número de empregos. Qual a resposta de Shetty, usando um ditado antigo? “Se se quer caminhar depressa, vai-se sozinho; se se quer ir mais longe, vamos juntos”.

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– Futuro
William Sargent, da Framestore, abordou a forma como passámos de ver tradicionalmente em dois ecrãs (televisão e cinema), para nove modelos essenciais de ecrãs, dos smartphones à realidade virtual. “A tecnologia torna algo possível”, pelo que “não há um futuro previsível mas a criar”, explicou, antes de mostrar um vídeo sobre a primeira experiência em grupo de realidade virtual. “Field Trip to Mars” leva um grupo de jovens estudantes a sentir que estão em Marte e é a criação desse futuro de que fala Sargent, com inúmeras potencialidades.

Quanto ao futuro do Web Summit, ninguém quer falar. Sabe-se que deve ter mais duas edições mas depois é uma incógnita. Cosgrave não respondeu a um email sobre esta questão, nem quando questionado em conferência de imprensa, e João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, disse-nos apenas que, após 2018, “podem ser mais um ou dois anos, mas eles é que decidem”. “Eles” é Paddy Cosgrave.

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