Caixa Mágica em processo de “consolidação”

O novo CEO, Carlos Coutinho, quer aproveitar o património de projectos desenvolvidos e iniciativas de I&D para relançar a empresa no crescimento.

O programa de investimento europeu Horizonte 2020 merece mais apreço do que o QREN por parte do CEO da Caixa Mágica. Carlos Coutinho revela pretender aproveitar as oportunidades de financiamento para desenvolver a investigação e desenvolvimento (I&D) da empresa de serviços e software open source.

A SAP e a Intel são parceiros nessa aposta, revela o executivo crítico da comunidade de empresas open source, não obstante parecer interessado num maior “entrosamento” entre elas.

CIO ‒ Afirmou no Linux 2015que as empresas portuguesas de open source ainda colaboram pouco. Pode aprofundar?

Carlos Coutinho ‒  Não há uma interacção entre os vários [potenciais] parceiros, embora estejamos a tentar com a ESOP criar uma interface. Cada empresa continua com o seu nicho particular, fechada no seu núcleo e ainda não cresceu para aquela que gostaríamos de ter, de participação e mesmo na criação de valor acrescentado e de parcerias.

Até na produção de código, que possamos re-utilizar e com o qual seria possível construir novas soluções. Podíamos concorrer a projectos em conjunto.

CIO ‒ Para negócios cá em Portugal?

CC ‒ Sim, tenho visto empresas na Alemanha e existe um espírito muito maior de entreajuda e de colaboração.

CIO ‒ Até em acolher propostas de empresas portuguesas?

CC ‒ Tipicamente, nessas situações, em parcerias.

CIO ‒ Qual é a situação do negócio de exportação de open source, em Portugal? Há muitas empresas a exportarem?

CC ‒ Normalmente, os serviços são para o mercado interno, englobando os de consultoria. Mas já existem várias empresas a fazerem exportação de serviços também.

CIO ‒ No caso da Caixa Mágica, qual é a situação?

CC ‒ Tipicamente, o que fazemos para o exterior, sobretudo Europa, são projectos de investigação. Eu também sou responsável por essa parte, normalmente fazemos projectos com outras empresas, inclusive em institutos portugueses.

CIO ‒ Neste momento, o que estão a desenvolver?

CC ‒ Estamos a participar no C2Net, integrado na “Call for Factories of the Future”, e o propósito é dotar as fábricas com uma forma de colaboração mais activa, incluindo a sua cadeia de abastecimento. Contempla a fase de abastecimento mas também de transformação das matérias-primas e a etapa da distribuição.

Nós temos parceiros nas três fases. Em Portugal, sobretudo para a fase inicial, embora também para a transformação no Norte, em metalomecânica.

A Pier Fabre participa na parte de distribuição. A ideia é conseguir que as fábricas consigam contemplar toda a parte de colaboração, tudo o que era feito caso a caso, em cada um dos fornecedores, para haver planos logísticos de abastecimento e optimizado.

Há vários operadores que têm de ser interoperacionais e transparentes para alimentar um motor com informação capaz de optimizar os planos de forma a tudo estar pronto na altura certa.

CIO ‒ Uma das razões que apontou para, à escala global, haver uma diminuição de colaboração é a entrada de mais dinheiro no circuito das empresas de open source. Mas não é esse o caso em Portugal?

CC ‒ Não, não é o caso. O problema é não haver entrosamento. As empresas de open source em Portugal são de nicho e difíceis de compatibilizar.

CIO ‒ Mas não podem concorrer em conjunto contribuindo cada uma com a sua área?

CC ‒ Podem mas não tem acontecido.

CIO ‒ Afirmou também que o open source português ainda “não consegue ir” aos grandes projectos.

CC ‒ Sim. Nós temos projectos grandes e temos alguma expressão na Administração Pública (AP). Mas se virmos a grande panóplia de iniciativas nesse sector, ainda são as grandes empresas de software a participarem. Está a mudar, nós estamos a tentar.

CIO ‒ Está a mudar ou vocês estão a tentar que mude?

CC ‒ O problema, por vezes, nem tem a ver directamente com open source mas sim com os fornecedores já estabelecidos e outros interessados nisso.

CIO ‒ Muitos dos grandes fornecedores de software proprietário têm também oferta open source.

CC ‒  Sim e muitos já estão no núcleo da actividade das organizações. Nos novos projectos conseguimos concorrer melhor. Mas há sempre conservadorismo.

CIO‒ Os efeitos do quadro legislativo para a AP são ainda fracos?

CC ‒  A situação está melhor mas, apesar disso, os gestores públicos são impelidos a evitar a mudança porque acarreta riscos para a posição do responsável. E os fornecedores já estabelecidos nas organizações não querem perder negócio.

CIO ‒ Além destes desafios, as empresas portuguesas de open source carecem de credibilidade?

CC ‒ Creio que não tem a ver com open source, mas sim com ter ou não expressão ou visibilidade, como aconteceu com a Caixa Mágica e o projecto do programa e-Escolas. É pena que a geração que cresceu com isso esteja a deixar o interesse pelo open source.

CIO ‒ Outros desafios?

CC ‒ Acompanhar a dinâmica vigente. Somos empresas de nicho e muitas vezes preocupamo-nos com o quotidiano, em resolver problemas específicos e em satisfazer determinando cliente.

Acho que as empresas de open source carecem bastante de uma área de I&D. A Caixa Mágica tem.

CIO ‒ Das suas receitas, quanto investe a empresa em I&D?

CC ‒ Não sei dizer, mas um quinto dos recursos humanos estão associados a essa área, com tendência para crescer, associada a uma mudança na administração da Caixa Mágica, por uma questão dinâmica
de renovação. O Paulo Trezentos, ex-CEO, continua presente mas como consultor activo, embora ligado à Aptoide.

CIO ‒ Com posição semelhante à de chairman, sem funções executivas.

CC ‒ Sim, o nosso problema principal tinha a ver com isso. A parte executiva consome tanto tempo que as pessoas deixam de o ter para pensar na estratégia. Libertámos-o para outra dinâmica.

CIO ‒ Como deverão funcionar a Caixa Mágica e a Aptoide?

CC ‒ Pretendemos colaborar ainda mais com a Aptoide e já concorremos juntos a projectos. Mas enquanto a Caixa Mágica é uma empresa de serviços, a Aptoide será de produto.

CIO ‒ Que ideias ou linhas estratégicas gostava de implantar na Caixa Mágica?

CC ‒ Para já, uma consolidação. Já temos um histórico de projectos e consultoria bastante rico. A ideia é aproveitar a área de I&D e as novas oportunidades de investigação.

Temos parcerias muito interessantes com a NOS e outras organizações que, de facto, querem apostar na investigação.

CIO ‒ Está a falar de oportunidades ligadas aos programas Horizonte 2020 e Portugal 2020?

CC ‒ Sim. O nosso objectivo inicial era o H2020, face ao historial inicial de projectos. Já temos uma quantidade considerável de parceiros, inclusive alguns de maior “peso” como a SAP, a Intel, a Atos e várias universidades.

Temos uma boa base para projectos europeus. Até agora era muito complicado avançar com projectos ligados ao QREN. O Portugal 2020 parece-nos muito mais flexível, menos burocrático e vamos apostar nele.

CIO ‒ E além disso?

CC ‒ Queremos expandir e trazer novas ideias para dentro da empresa. Por exemplo, para a parte de mobilidade, na qual podemos ter alguma parceria com a Aptoide.

Outro objectivo é revitalizar a parte da distribuição, da Caixa que não morreu e tem uma comunidade interessada. Como nas escolas o projecto não está tão activo, por desinteresse da AP, o ímpeto esmoreceu.

CIO ‒ Mas voltar às escolas seria importante para a empresa porquê?

CC ‒ Para formar, dar apoio. Falta educar as pessoas sobre o open source. Tem de começar antes de serem técnicos nas empresas.

CIO ‒ Afirmou ter havido alguns “contras” nos portáteis Magalhães para o open source. Referia-se a quê especificamente.

CC ‒ Esse aspecto ultrapassa-me um pouco, mas referia-me a alguns problemas de hardware e à parte de gestão de contas. Mas o Magalhães até foi benéfico para visibilidade do open source e da Caixa Mágica.

Previsão de crescimento zero

CIO ‒ Quanto facturou a empresa durante 2014?

CC ‒ Cerca de um milhão de euros.

CIO – Como tem corrido 2015?

CC ‒ Este ano tem sido complicado, porque um dos nossos clientes principais, o Sapo, tem sofrido algumas contrariedades. Temos compensado, mas como tivemos uma mudança de administração é natural que não seja possível manter ou melhorar o registo. Ficaríamos muito satisfeitos se este ano conseguirmos manter a facturação.

CIO ‒ E em 2016?

CC ‒  E no próximo ano conseguirmos crescer para 1,5 ou dois milhões.

CIO ‒ Com exportação. Quanto representa esse negócio?

CC ‒ Em média temos projectos de 200 mil euros a três anos. Estamos a falar de 20%.

CIO ‒ E outros serviços de consultoria e integração?

CC ‒ Perto de 70%, além de uma parte mais pequena de projectos internos que realizamos com a NOS ou o Sapo. São projectos chave na mão e representam perto de 10%.

 

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