Lições a tirar do caso Harvey Weinstein

Finalmente a sociedade e as instituições começam a ouvir mais as mulheres quando estas se queixam de assédio sexual no trabalho. Mas é tempo de familiares e amigos fazerem o mesmo, considera Sharon Florentine, jornalista da CIO.com

Sharon Florentine, jornalista da CIO.com

As mulheres sempre procuraram falar sobre agressões e assédio sexuais e discriminação. É verdade. O problema é que numa sociedade patriarcal, muitas vezes somos descartadas, as alegações são invalidadas, as nossas preocupações são minimizadas, somos responsabilizadas pelo sucedido ou mesmo ignoradas.

Na semana passada, à medida que as acusações de assédio e agressão sexual contra Harvey Weinstein [produtor da indústria cinematográfica] surgiram, eu assistia ao evento “Grace Hopper Celebration of Women em Computing” e pensava em como as desigualdades de género e sexo e problemas de diversidade na tecnologia são frequentemente reduzidas a um problema de “pipeline”. Mas cercada por 18 mil mulheres profissionais de TI , esse argumento não pareceu ter sustentação.

A questão não é tanto sobre descobrir e contratar mulheres com competências em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, sigla em inglês), e passa por conseguir mantê-las na área de conhecimento.

Porquê? Bem, esse campo pode ser um ambiente inóspito, para dizer o mínimo. Se os homens (brancos e heterossexuais) não estão a escrever memorandos detalhando como somos biologicamente impróprias para ter sucesso nas carreiras de STEM, afirmam que contratar mulheres exigiria que eles “baixassem os seus padrões” [de exigência].

E se não estão o dizem, tentam afirmar, fazendo comentários inapropriados, ou de outra forma perseguindo-nos até irmos embora. O que tem isso a ver com Harvey Weinstein? Bem, fico feliz por estar a questionar isso.

Isso tem a ver com o facto de, mesmo quando vimos mais mulheres a falarem e a realmente serem ouvidas, o silêncio dos homens poderosos em Hollywood foi bastante ensurdecedor [até dada altura]. Isso é um problema porque as mulheres e as minorias sub-representadas são realmente punidas não apenas por discriminação, assédio e opressão, mas são punidas por falar sobre esses problemas e por promover a diversidade no local de trabalho. São vítimas de novo.

Não se trata apenas de falar publicamente. Também é preciso falar do problema nas interacções privadas, em lugares e situações em que não há mulheres.

Por isso, brancos, heterossexuais e homens cujo género corresponde ao sexo original: precisamos da vossa ajuda. Se realmente se comprometem com a diversidade e a inclusão, se são verdadeiramente “feministas” ou “anti-racistas”, ou se pretendem ser um aliado, precisamos de ouvir as vossas vozes levantadas ao lado das nossas.

Precisamos que falem publicamente contra esses incidentes. Mas é neste ponto que as coisas ficam um pouco complicadas. Não se trata apenas de falar publicamente. Também é preciso falar do problema nas interacções privadas, em lugares e situações em que não há mulheres.

Onde não há pessoas de cor ou alguém com alguma deficiência, num grupo composto unicamente de homens brancos como você. Um amigo faz uma piada racista? Chame-os à atenção. A pessoa à sua frente no supermercado faz uma observação transfóbica? Chame-os à atenção. Um conhecido deixa um comentário intolerante no Facebook de um amigo? Responda.

Também não tem que ser uma cena dramática. Chega um simples, “Ei, isso não é correcto”. Ou, “Essa linguagem não é aceitável, ok?”. Ou “Não acho essa piada engraçada”.

Esses tipos de respostas são muitas vezes suficientes para o momento. Mais tarde, você pode levar a conversa para uma configuração mais privada.

Também não precisa de ser complicado. Ninguém gosta desse tipo de confrontações, mas pode enquadrá-las assim: “Procurei falar consigo para não humilhá-lo e porque acredito que é o tipo de pessoa capaz de entender, porque isso [o que disse] não é aceitável, para quem activamente quer mudar o seu comportamento para melhor “.
Os negros, hispânicos / latino-americanos, asiáticos e nativos americanos e pessoas de cor não podem ‒ e não devem ‒ 0 ser responsáveis ​​por “consertar” o comportamento racista. As pessoas “LGBTQ+” não podem – e não devem ‒ ser responsáveis ​​por “reparar”” a homofobia e a transfobia e a bifobia.

As mulheres não podem ‒ e não devem ‒ ser responsáveis ​​por eliminar o sexismo. Pessoas com deficiência não podem ‒ e não devem ‒ ser responsáveis ​​por consertar a discriminação associada.

Onde quero chegar com isso? Quero dizer que é muito trabalho emocional para pessoas já vítimas de micro-agressões, discriminação e ódio declarados. Sim, podemos ajudar, às vezes, se tivermos energia e sentirmos que os nossos esforços valerão a pena.

Mas você, branco, heterossexual, masculino, precisa de carregar com a maior parte do peso. O privilégio e o poder estão do seu lado e queremos que o use. Se ver alguma coisa situação [reprovável], pronuncie-se.

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