Como a Ford usa a realidade misturada no desenho de automóveis

A tecnologia de realidade misturada está a transformar vários dos processos cruciais da Ford para projectar automóveis, camiões e utilitários desportivos, ajudando a colocar as pessoas no centro da sua inovação.

Poucos sectores estão a passar por mudanças conduzidas pelas TI, do que o sector automóvel, envolvendo serviços de partilha de carros em viagens, carros eléctricos e até de condução autónoma. Mas há outro tipo de perturbação digital a acontecer na Ford Motor, onde os designers estão a usar óculos HoloLens, da Microsoft.

Nisso, o seu objectivo é refinar a aparência dos carros segundo princípios de design centrados no ser humano. Os HoloLens permitem o que é conhecido como uma experiência de realidade mista ou misturada.

À semelhança da realidade virtual e da realidade aumentada, a realidade misturada sobrepõe informação contextual sobre as janelas virtuais de visualização ou ecrãs. Combinando mundo físico e digital, os HoloLens ajudam os funcionários a completarem o seu trabalho sem precisarem de contacto com uma mesa, por exemplo.

Esse tipo de flexibilidade, juntamente com a promessa de melhorar a eficiência operacional, é um grande argumento pelo qual os revendedores, as companhias aéreas e as empresas de saúde estão a adoptar a tecnologia.

Os ganhos de eficiência são exactamente o que a Ford estava à procura quando abordou a Microsoft em 2016, para embarcar em testes de prova de conceito dos HoloLens. Idealmente interessava-lhe melhorar o fluxo de trabalho para designers obrigados a tomarem milhares de decisões na modelação de automóveis, camiões e veículos utilitários desportivos (SUV, sigla em inglês) da Ford, revela Craig Wetzel, gestor de operações técnicas de design da Ford.

Realidade misturada oferece impulso de eficiência

O fabricante gere cinco unidades fabris capazes de produzir modelos de carros de tamanho real em argila. Depois de um exemplar de veículo estar pronto, designers e modeladores o raspam-no manualmente para refinar a sua aparência.

Depois é feita uma imagem digital do objecto para um escrutínio adicional. Mas este processo torna difícil aos designers alinharem os modelos físicos e virtuais porque têm dificuldades para vê-los lado a lado.

“Não conseguem ver, sentir ou tocar o veículo na sua escala total”, diz Wetzel. Assim, quando os designers fazem mudanças no modelo de argila, voltam ao computador para ver o impacto da mesma, e depois voltam a moldar a argila um pouco mais. Muitas lavagens e repetição de tarefas se seguem.

Os HoloLens reduzem esse problema. O dispositivo projecta imagens holográficas no campo de visão do utilizador, recorrendo a sensores para corrigir essas imagens, quando o utilizador muda os ângulos de visão ou quando anda pelo modelo em argila.

Os designers também podem percorrer várias opções de desenho para componentes como grelhas, pára-choques ou espelhos laterais, com movimentos de mão e a exibição de esboços, nas paredes físicas do estúdio.

Um designer e engenheiro pode avaliar como um novo design de espelho lateral afecta a estética, assim como a opinião do cliente.

“Eu posso andar por aí em torno desses hologramas do desenho do meu carro, como um cliente andaria em torno dele, e ver a representação digital em grande escala”, diz Wetzel. “Trata-se de torná-lo mais centrado no ser humano e de garantir que o cliente faz parte dos nossos projectos”.

Isso oferece oportunidades significativas à Ford para mudar os seus processos de design, economizando tempo. Um designer e engenheiro pode avaliar como um novo design de espelho lateral afecta a estética, assim como a opinião do cliente.

Tradicionalmente, um designer traria um cliente típico para avaliar o espelho e depois tentar lembrar-se de onde, aproximadamente, estariam a olhar para o carro quando disseram que não gostavam do aspecto do automóvel.

Com os HoloLens, o retorno do cliente é registado em tempo real. “Grava-se exactamente onde está de pé para poder replicar o que viu antes”, diz Wetzel. “A visão crítica de onde os clientes vêem um problema é a chave para nós”.

Os processos de design que antes decorriam durante dias ou semanas num ciclo iterativo estão agora concluídos ao fim de um dia. Um grande factor para isso é o acesso à informação em tempo real e a partilha de dados que os HoloLens permitem.

Se um designer com o dispositivo faz uma mudança no modelo de argila, consegue obter “retorno imediato” quanto ao impacto das suas mudanças, evitando a necessidade de verificar as alterações no computador, diz Wetzel. Os designers da Ford na Europa também podem introduzir notas sobre os problemas em que estão a trabalhar e sobre os quais os designers dos EUA podem trabalhar no dia seguinte. “Desenrola-se um ciclo criativo de 24 horas por dia”, diz Wetzel.

HoloLens servem a discrição 

Os HoloLens também ajudam a Ford a manter a informação proprietária protegida. Designers, engenheiros e gestores de produtos trabalham mais facilmente de forma sigilosa em esquemas proprietários e sensíveis, cujos componentes são altamente compartimentados para preservar o segredo de negócio.

Os engenheiros costumam trabalhar em peças de um veículo sem verem o seu modelo completo. Usando os HoloLens, equipamentos de desenho e engenharia podem trabalhar em partes discretas do veículo sem arriscar fugas de informação sobre o desenho. “Posso controlar quem vê os dados”, resume Wetzel.

A Ford, que trabalhou em estreita colaboração com uma Microsoft para criar software de visão geral para os HoloLens, usa 10 unidades em Dearborn, no Michigan.
A implementação da HoloLens sublinha o empurrão da empresa para o design centrado no ser humano, também conhecido como pensamento de design, no qual as empresas avaliam a experiência do cliente sobre novas e brilhantes tecnologias na construção de produtos.

“Parece óbvio, mas é algo que é fácil de perder de vista quando se busca a inovação e a novidade”, escreve Jim Holland, vice-presidente da Ford para componentes de veículos e engenharia de sistemas. “Chama-se Design Thinking e está a redefinindo a nossa cultura e processos em toda a nossa organização global para garantir que colocamos as pessoas no centro do nosso trabalho”.

A Volvo, Lowe e Autodesk estão entre as várias empresas a testar os HoloLens. A Gartner diz que 20% das grandes empresas terão avaliado e adoptado alguma forma de realidade misturada imersiva, aumentada ou virtual até 2019. Em 2020, 50% das maiores empresas globais do mundo terão experimentado ou integrado dispositivos acrescenta.

*Com Clint Boulton, do CIO.com

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