Sector das TI quer envolver consumidor e equipas

Num painel sobre o estado da nação das TI em Portugal, a linguagem tecnológica esteve essencialmente ausente. Os líderes das empresas estão agora focados nas pessoas: clientes, colaboradores ou parceiros.

Foco no consumidor. Enriquecer relação com o cliente. Formação dos colaboradores. Valor do trabalho. Competências dos recursos humanos. Cadeias de valor assentes nas relações com clientes, parceiros ou concorrentes. Partilha de conhecimento. Criação de valor acrescentado e inovação.

Estes foram alguns dos chavões que mais se ouviram durante o debate do Estado da Nação das TI em Portugal, durante o 27º Congresso da APDC, esta semana, em Lisboa.

A par das pessoas, os líderes da indústria destacaram tecnologias e tendências: automóveis autónomos, Big Data, analítica, cloud, capacidade de armazenamento, indústria 4.0/IoT, inteligência artificial, realidade aumentada e a inevitável cibersegurança (também ela relacionada com a fragilidade das pessoas num meio incrementalmente dominado pela engenharia social). Todos os conceitos integrados num mundo em transformação digital.

Para o futuro, que já em construção, os destaques vão para tecnologias como a computação quântica ou a impressão 3D. O cenário poder ser de facto o de uma “revolução digital”, que, segundo alguns líderes está já em curso.

Pedro Queirós, presidente da Ericsson

Pedro Queirós, presidente da Ericsson, vai mais longe apontando para um novo sistema social: o “dataísmo”. “O sistema social em que os dados estão sempre presentes”, explicou , recordando que já hoje “damos os nossos dados pessoais em troca de quase nada”, criando os alicerces dessa “Internet do carbono”, em que o ser humano estará directamente ligado à Internet.

E tal poderá ser uma realidade dentro de 10 ou 15 anos, vaticina o executivo. O orador, que para mais longe no futuro quis olhar, antecipa que caminhamos para um mundo em que a inteligência artificial estará plenamente  desenvolvida, em que o ser humano poderá viver 200 anos (quem sabe?), em que a felicidade poderá ser obtida através da injecção de serotonina ou dopamina, através da evolução da Internet das coisas, para a “Internet do Carbono”.

Mas enquanto as pessoas não se tornam elas próprias parte integrante da Internet, importa avaliar qual o seu papel no mundo empresarial cada vez mais interconectado.

Envolvimento dos utilizadores

Luís Paulo Salvado, CEO da Novabase

Luís Paulo Salvado, CEO da Novabase

“O grande motor da transformação [do mundo] é o nível de envolvimento (“engagement”) que as soluções estão a introduzir junto dos utilizadores”, disse Luís Salvado, presidente da Novabase. Naturalmente a tecnologia tem um papel fundamental, mas, sublinha, o segredo está nas abordagens centradas nas pessoas (“people centric”).

[Na Novabase], “há vários anos que consideramos que as pessoas estão em primeiro lugar. Não só nas soluções que criamos para os clientes, mas também internamente”, defende Luís Salvado.

O responsável considera que é “preciso mudar a forma como as empresas trabalham, mudar a cultura corporativa” até para antecipar o futuro e as novas equipas. “Temos 2000 colaboradores, 70% dos quais já são da geração y”, referiu o presidente da multinacional portuguesa. São pessoas que conviveram desde sempre com a Internet e que acumulam experiências internacionais desde cedo.

“Gostávamos que houvesse mais partilha e acção para fazer face ao desafio de captar e reter talento em Portugal”, Luís Salvado, Novabase

Luís Salvado defende que é necessário “no processo de aprendizagem, que estejam envolvidos em projectos internacionais” e lança o repto: “gostávamos que houvesse mais partilha e acção para fazer face ao desafio de captar e reter talento em Portugal”.

Desígnio da formação

Pedro Afonso, CEO da Axians Portugal

O líder da Novabase assinala ainda que é fundamental para o país continuar a  consolidar-se  “como foco de inovação”. No entanto alerta para latente a escassez dos recursos humanos, que resultam em “problemas no recrutamento”, que “já se sentem”. Se é positiva a abertura de centros de excelência em Portugal é igualmente importante “olhar para o problema [da escassez de recursos] com a profundidade que ele tem”.

A ideia foi também abordada por Pedro Afonso, CEO da Axians, que considera que é “uma responsabilidade das pessoas, das empresas, da escola, dos pais” encaminhar os jovens para as TI. “Temos de motivar os jovens para contribuir para o processo criativo, porque é a criar, não a aviar que se consegue evoluir”.

O problema vai mais longe. É o caso da questão do género. Luís Salvado demonstrou, recorrendo a um exemplo que, se nas universidades de engenharia, como no caso do IST, 90% dos alunos admitidos foram do sexo masculino, dentro de cinco anos, quando chegarem ao mercado de trabalho, naturalmente as empresas só irão conseguir captar 10% de mulheres.

“Temos de fazer um esforço enorme para dar resposta à questão do género”. O responsável assinala que “se quisermos reduzir [a disparidade], é preciso trazer mulheres para esta causa”. A solução para a escassez de recursos humanos, incluindo a questão do género, passa “por envolver universidades, empresas e criar atractividade nestas áreas. Era bom trabalhar nisto desde já”.

Paula Panarra, directora-geral da Microsoft Portugal

O painel do Estado da Nação das TI integrou 15 responsáveis de topo das empresas do sector e 20% eram mulheres.

Célia Reis, directora-geral da Altran Portugal, defendeu a adaptação das “pessoas, das empresas e do ensino” em matéria de novas competências.

Enquanto que Paula Panarra, directora-geral da Microsoft, apontou para a importância da formação, algo que está patente numa das frases usadas pela multinacional: “não desistas de TI”, em que TI é em simultâneo a pessoa e as tecnologias de informação.

Temos de nos diferenciar pela capacidade de desenrascanso enquanto sinónimo de capacidade de inovar”, Pedro Afonso, Axians Portugal

Por seu lado, Pedro Afonso (Axians) assinalou que “as empresas precisam de ter um foco no valor acrescentado do que fazemos em Portugal. Não podemos vender horas a metro”. “É melhor vender o valor do trabalho, não o tempo de trabalho”. Referindo uma das características que definem o “português”, o “desenrascanso”, Pedro Afonso aponta para a necessidade de dar um novo significado a esta característica, tornando-a uma mais valia-positiva. “Temos de nos distanciar do fazer em cima do joelho. Temos de nos diferenciar pela capacidade de ‘desenrascanso’ enquanto sinónimo de capacidade de inovar”.

Quanto à escassez de recursos humanos, Pedro Afonso ilustrou com umas contas simples: “se houver 7500 pessoas a sair da universidade e o mercado precisar de 10 mil, temos necessariamente que automatizar para rentabilizar as pessoas que são escassas”. O responsável aponta ainda o dedo aos métodos de ensino, em particular os manuais que têm de adquirir outro formato, porque só desse modo iremos ter pessoas suficientes para dar resposta à procura.

António Raposo Lima, presidente da IBM Portugal

Uma ideia diferente foi evidenciada por António Raposo Lima, presidente da IBM: o custo do desconhecimento, que obriga a uma “aposta na requalificação dos jovens, adultos e seniores”. E o desconhecimento passa não só pela escassez de recursos e competências, mas também pela informação disponível.

“Mais de 85% dos dados disponíveis são não estruturados”, o que invalida a criação de conhecimento, referiu. “Qual o custo do desconhecimento na saúde, quando o médico não sabe do mais recente estudo sobre aquela doença? Qual o custo do desconhecimento para um advogado, quando não consultou determinado caso semelhante ao seu recentemente julgado?”.

“Os dados que produzimos e recolhemos, a capacidade de computação em nuvem – e no futuro quântica –  e os algoritmos permitiram democratizar a inteligência artificial”, Paula Panarra, Microsoft

Paula Panarra reforçou a ideia: “a inteligência artificial não é um conceito novo. A diferença é que agora os dados que produzimos e recolhemos, a capacidade de computação em nuvem – e no futuro quântica –  e os algoritmos permitiram democratizar a inteligência artificial.

Enriquecimento pela partilha

Nuno Santos, administrador-delegado da GFI Portugal

“Não é a tecnologia que resolve os problemas, mas sim as pessoas, dizia Diogo Vasconcelos. Eu adapto: não é a tecnologia que cria conhecimento, mas sim as pessoas”,  propôs  Nuno Santos, director-geral da GFI Portugal, que destacou as pessoas, a partilha e a colaboração como grandes motores da transformação digital. Ao assinalar que a maior parte da criatividade é gerada em processos colaborativos, apontou casos nacionais como o Portal do cidadão, o Portal da Justiça ou a Pordata como exemplos dos benefícios que se podem retirar da partilha e de processos de colaborativos.

Torna-se, no entanto, essencial salvaguardar a propriedade dos dados. “É preciso encontrar soluções em que a questão da propriedade dos dados é crítica, perceber quem detém os algoritmos. A transparência é fundamental”, defende António Raposo lima (IBM).  Para acelerar na era cognitiva.

“As organizações devem tirar partido de metodologias como o scrum, o agile, o lean ou das DevOps, metodologias de colaboração, partilha e híper-transparência”, Manuel Maria Correia (DXC)

Manuel Maria Correia, director-geral da DXC Technology

Manuel Maria Correia, director-geral da DXC, considera que a transformação digital é “inovação, intuição”, sendo necessário “desenhar novos modelos de negócio”. Para o efeito, as organizações têm de criar uma cultura de aprendizagem pela experimentação, de desenvolver estratégias digitais, incentivar o trabalho em equipa e a gestão de informação, recriar canais ou novas abordagens ao mercado.

Sempre focado nas pessoas, acrescentou que as na execução, as organizações devem tirar partido de metodologias como o Scrum, o Agile, o Lean ou a DevOps, metodologias de colaboração, partilha e hiper-transparência.

A impressão 3D, integrada nos processos produtivos, será igualmente um catalisador da 4ª revolução industrial, em particular na transformação digital de processos produtivos.

José Correia, director-geral da HP Portugal

A tecnologia, segundo José Correia, director-geral da HP Portugal, já endereça necessidades específicas da indústria automóvel, aeroespacial, da saúde ou do comércio.

Na HP, metade das peças das impressoras já são fabricadas com recurso a esta tecnologia. Quando for possível afinar a finalização do trabalho, a impressão 3D irá “entrar na indústria transformadora”. Com os custos a baixar, importa “trabalhar em rede, numa relação aberta entre fornecedores e clientes”.

Fernando Braz, director-executivo do SAS

Intrinsecamente ligada às grandes quantidades dados, está a analítica. Fernando Braz, director executivo do SAS, demonstrou de que forma pode a analítica contribuir para melhorar a vida das populações em caso de desastres naturais. Para além de poder antecipar algum tipo de calamidades – como tempestades – pode ajudar no terreno no rescaldo dos incidentes.

Fazer chegar os alimentos ao local necessário, mitigar os suicídios entre os jovens, incrementar a angariação de fundos para determinada causa com base na analítica preditiva foram apenas alguns dos exemplos referidos. Exemplos que podem ser replicados nos negócios das empresas por exemplo, na identificação de padrões que possam apontar para crimes financeiros ou fiscais.

As empresas de TI estão a investir numa maior relação com as pessoas, não deixando, no entanto, de investir em inovação. Com o digital omnipresente, existem actualmente mais de oito mil milhões de dispositivos ligados, que poderão ser 18 mil milhões em 2020, segundo António Lagartixo, partner e business unit leader da Deloitte, é preciso olhar em frente tendo consciência que vamos ter desafios e ameaças.

Foco no cliente

António Lagartixo, partner, business unit leader na Deloitte

A transformação digital acarreta consigo um paradoxo. Se por um lado as empresas dizem estar cada vez mais focadas nas pessoas, por outro lado, 85% das interacções com o cliente deverão em breve realizar-se sem recurso à intervenção de pessoas, avança António Lagartixo (Deloitte). Para tal contribui a inteligência artificial e a aprendizagem automática  ou o Big Data. Com revolução digital em curso, a tecnologia irá permitir reduzir 30% a taxa de mortalidade de doentes crónicos, o que irá contribuir também para a tendência de envelhecimento da população, ao mesmo tempo que são eliminados postos de trabalho relacionados com o atendimento ao cliente, reforça, prevê. A solução será “trabalhar em rede, e com mais entidades, porque as organizações não vão conseguir reunir internamente todo o know-how para prestar o serviço aos seus clientes”.

“A tecnologia irá permitir reduzir 30% a taxa de mortalidade de doentes crónicos”, António Lagartixo (Deloitte)

Carlos Barros, managing director da Fujitsu

“Até há pouco tempo era muito difícil marcar uma reunião sobre transformação digital com administradores de empresas. Hoje consegue-se”, afirmou Carlos Barros, director-geral da Fujitsu Portugal. O conceito já entrou no vocabulário das organizações e é mais fácil agora transmitir a “importância do IT na transformação dos nossos clientes”, frisou.

Para a Fujitsu, a digitalização aplica-se a todos os sectores de actividade e assenta em tendências como a conectividade, o IoT/indústria 4.0, a Inteligência artificial e no cliente. “Tudo deverá ser feito na perspectiva do cliente. Temos de ajudar os nossos clientes a conhecer melhor os seus clientes”, assinalou Carlos Barros.

Ideia corroborada por Paula Panarra (Microsoft) quando aponta o incremento da conectividade, da realidade mista como meios para encontrar “novas formas de comunicação entre as empresas e os consumidores”.

Célia Reis, directora-geral da Altran

Em linha com esta ideia, também Célia Reis (Altran), reconhece que o digital é uma oportunidade para “enriquecer a relação com o cliente”, através da automatização de processos e inovação. A responsável está particularmente focada naquilo que irá ser a evolução “dos nossos clientes ao longo do tempo”, em como “será o investimento distribuído” e em identificar “onde é que existe disrupção”. A inovação é uma das palavras-chave para a empresa centrada no “conhecimento do cliente”, na forma como este “se expressa nas redes sociais”, associados à performance de máquinas (incluído veículos de alta performance) que estão a ser desenvolvidos em Portugal. A empresa procura ainda “novas formas de interagir com um ecossistema industrial”, em particular com a industrial automóvel.

“Voice of the client”. Este é o nome do plano estratégico da CGI, segundo explicou o novo CEO da empresa, Olivier Spréafico, salientando que a empresa quer “saber quais as expectativas e para onde o mercado caminha”, sondando para o efeito os seus 1300 clientes a nível mundial, incluindo os 60 de Portugal e Espanha.

Olivier Spréafico, CEO da CGI

A partir dessas entrevistas, a CGI identificou três tendências globais que está a endereçar: tornar-se digital, a cibersegurança e as obrigações regulatórias. Com base nesta sondagem, em Portugal, a CGI está a investir em tornar as empresas mais digitais e “ciber”.

Portugal precisa de “digital, robótica e inteligência artificial”, tecnologias que mais que “enablers da mudança são drivers dessa mudança”, defende.

Em síntese, o cliente não quer produtos, quer soluções. O cliente não quer comprar, quer modelos de consumo, assinalou Carlos Leite, director-geral da HPE.

Carlos Leite, director-geral da HPE

E para este panorama contribuiu a transformação digital em curso – “porque a revolução virá mais à frente” – composta por cloud, mobilidade, IoT, smart buildings e smartcities. Para dar resposta às necessidades do clientes, a HPE está investir no suporte a desenvolvimento de apps, nas TI híbridas e  sensores.

Acautelar a segurança

Sofia Tenreiro, directora-geral da Cisco

As pessoas estão no centro das visões das empresas sejam elas clientes, parceiros, consumidores, funcionários, jovens estudantes. Mas, as pessoas são também um risco. E a cibersegurança é uma matéria que não pode ser descurada. Sofia Tenreiro, directora-geral da Cisco Portugal, recordou o “impacto da tecnologia na nossa vida, nos nossos negócios e no mundo. Todos equacionamos se estamos preparados para o futuro, mas o futuro é já hoje”.

Tenreiro citou o, ainda, chairman mundial da Cisco, John Chambers, “não existem empresas que não foram atacadas. Há empresas que não sabem que foram atacadas”.

“Uma das maiores fragilidades são as pessoas. Clicamos em links não devíamos”, Sofia Tenreiro (Cisco)

Mais uma vez, a formação e a consciencialização dos recursos humanos é essencial. A multiplicação das ligações que “mudam a maneira como aprendemos, divertimos, trabalhamos e vivemos” representa um risco, pois criam oportunidades de ataques.

Tecnologias e soluções a ter debaixo de olho

Digitalização;
Big Data;
Cloud;
Cibersegurança;
Veículos autónomos;
Soluções de armazenamento (mais económicas);
Impressão 3D;
IoT;
Indústria 4.0;
Mobilidade;
Blockchain;
Computação quântica;
Inteligência Artificial/aprendizagem automática;
Analítica;
Smart buildings e smartcities.

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