Capacitação das pessoas é essencial para a transformação

No debate sobre a estratégia digital para o país, durante o congresso da APDC, o mote foi a capacitação de pessoas e empresas, a captação de investimento e a retenção de talento.

O conselho português da estratégia digital, organizado para a 27ª edição do Congresso da APDC, apresentou algumas das suas reflexões sobre o nível de maturidade tecnológica na economia portuguesa e os impactos que a transformação digital  pode ter, durante o primeiro dia. A capacitação das pessoas e das empresas, a revitalização do investimento do tecido empresarial e do Estado – adiado devido à conjuntura económica adversa dos últimos anos -, a atracção de investimentos internacional e do interesse por cidades em Portugal, incluindo a retenção de jovens talentos, são alguns dos caminhos traçados e sintetizados pelo vice-presidente da Accenture, Luís Pedro Duarte, membro do grupo.

Recentemente nomeado para o cargo na consultora, o executivo espera que o grupo “tenha vida para além do congresso”, considerado mesmo fundamental “se quisermos continuar a evoluir”.

Muito há por fazer, mas também já foi feito bastante, como revela o estudo da APDC, publicado esta quarta-feira com 97 casos de transformação digital em Portugal. Também durante o congresso da APDC algumas grandes empresas revelaram o que tem sido feito no seio das suas organizações

Luís Pedro Duarte apontou alguns caminhos para o país que passam pela capacitação das forças de trabalho, nomeadamente através das universidades, numa altura em que a escassez de recursos humanos qualificados é um problema generalizado em Portugal, na Europa e no mundo.

Também a capacitação das empresas é fundamental, assinalando que é necessário revitalizar o investimento na transformação digital, passadas as contingências inerentes à conjuntura de crise económica quer por parte do tecido empresarial quer por parte da Administração Pública. Para já, o desafio passa pelo Estado, que tem de voltar a investir, pois acaba por ser “um indutor de comportamentos de práticas digitais”, nas palavras de Luís Duarte.

Em causa está também um desafio nacional: “o país, para continuar a crescer, tem de captar mais investimento estrangeiro” e deverá estar atento a vários tópicos: “A velha economia não está condenada, é necessária cooperação entre o tecido empresarial estabelecido e as startups com vista à inovação”, frisou.

Qualidade do talento

Constante neste painel, foram as questões relacionadas com o ensino e formação. “Vejo com optimismo a qualidade do talento produzido”, reconhecido internacionalmente. No entanto, os recursos portugueses acabam por sair do país rumo a grandes empresas internacionais, lamenta Luís Pedro Duarte que sublinha a importância de conseguir reter esses talentos no país, quer através da atracção de estudantes quer de jovens profissionais, que se instalem no país, para rejuvenescer a pirâmide demográfica portuguesa. A manter-se a actual estrutura da pirâmide, demasiado envelhecida, poderá por-se em causa o desenvolvimento da economia digital, alerta.

As escolas devem ser sítios de aprendizagem e não de ensino

As escolas devem ser sítios de aprendizagem e não de ensino. A ideia é subscrita por dois dos participantes no painel sobre a estratégia digital para o país, no qual se procura encontrar caminhos para a captação e retenção de talento para o país,  Nadim Habib, professor na Nova SBE, e Maria de Lurdes Rodrigues, investigadora no ISCTE

Com base no mote da robotização dos postos de trabalho e da velocidade de transformação digital, Nadim Habib, professor na Nova SBE, assinalou que a sua grande preocupação não é a tecnologia, mas sim a forma como esta é utilizada. O académico assinala que, nas empresas, “existe uma tensão emocional latente”, devido à preocupação que as pessoas manifestam relativamente à continuidade dos seus postos de trabalho.

O professor voltou à analogia da onda e assinou que “não vale a pena tentar para a onda com as mãos” e sublinhou a importância da escola enquanto “sítio onde se aprende e não  o sítio onde se ensina”.

Também Maria de Lurdes Rodrigues, investigadora no ISCTE, põe o dedo na ferida: “estão a escola e o ensino ajustados à velocidade vertiginosa a que a indústria estão a mudar?” No entanto levanta uma questão ainda mais complexa: quais são os valores em que se sustenta a sociedade actualmente e como é que são aplicados. Actualmente “os valores que regulam o conhecimento no nosso dia a dia são os da Revolução Francesa” (justiça, solidariedade, igualdade), mas é preciso compreender que valores estão a mudar e como serão aplicados. “Teme-se o que poderá vir a passar-se no mercado do trabalho”, porque há sinais que “revelam menor predominância da solidariedade e redistribuição dos recursos”.

Recorda que, na idade média – e noutras épocas da história – a liberdade estava limitada pela falta de conhecimento e formação e reforçou a ideia de Nadim Habib de que “as escolas devem ser sítios de aprendizagem e não de ensino”. Maria de Lurdes Rodrigues concluiu que “a questão da liberdade de ensino e de produção de conhecimento são elementos essenciais para o desenvolvimento e progresso que assistimos”.

Agenda digital partilhada

O vice-presidente da Accenture, Luís Pedro Duarte, propõe a discussão da competitividade das cidades e a criação de uma estratégia de investimento nas cidades. Tal pode concretizar-se através de investimento específico ou da deslocalização de trabalhadores que não têm necessariamente de trabalhar na sede da empresa. “Quando maior a população, mas impostos se cobram”, defendeu.

Carlos Oliveira, presidente da Startup Braga, acrescenta ainda o quão importante é ter uma agenda digital partilhada entre os sectores público e privado. Sublinhando ainda que “temos de assumir se o digital é uma oportunidade para o país”.

Sobre a promoção das cidades, destacou o caso da cidade onde trabalha – Braga – que tem aumentado a sua atractividade com base na ligação entre a universidade, o sector empresarial e o Estado, em torno do conhecimento assente na nanotecnologia, enquanto elemento diferenciador.

É também aqui que se desenvolve um ambiente de empreendedorismo em linha com a prática de apoio às startups, referida por Rogério Carapuça, como sendo daquelas iniciativas que é importante promover no país.

Artigos relacionados

O seu comentário...

*

Top