4ª revolução industrial vai obrigar a repensar a empregabilidade

Investir na formação de recursos humanos assume carácter fundamental, afirma Fernando Chaves, especialista de risco da Marsh Portugal.

 

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Fernando Chaves, especialista em riscos na Marsh & McLennan Portugal

Os recursos humanos mais velhos devem apostar na formação permanente, mas em funções nas quais é menos provável serem substituídos pela robotização ou pela inteligência artificial, recomenda Fernando Chaves, especialista de risco da Marsh & McLennan Portugal.

Investir na formação de recursos humanos será fundamental para as empresas portuguesas na evolução Indústria 4.0 considera, em entrevista, a propósito do estudo em que a consultora participoupara o Forum Económico Mundial: o Global Risk Report 2017.

A vaga de evolução prevista vai desafiar os Estados a repensar a empregabilidade, a segurança social e a tipologia de impostos, assegura.

Computerworld ‒ Que desafios enfrenta Portugal em particular quanto à gestão da disrupção, provocada por tecnologias emergentes associadas à Inteligência Artificial (IA) e robotização?

Fernando Chaves ‒ Portugal enfrenta fortes desafios em diversos quadrantes. Na Educação, os programas escolares tenderão a absorver novas matérias, sendo também, para isso, necessário garantir que os professores estão convenientemente formados.

A IA e a robotização entraram no nosso dia-a-dia, pelo que é imperativo rever ou criar novas leis. Veja-se, por exemplo, o impacto que pode ter uma utilização cada vez maior de veículos autónomos, que obrigam à revisão da tipologia de seguros e à assunção de responsabilidades, ou até à adaptação de infra-estruturas.

CW ‒ Quais vão ser os principais desafios das empresas portuguesas com na vaga da Industria 4.0?

FC ‒ As empresas portuguesas terão, inevitavelmente, de se adaptar para poderem continuar a ser competitivas. Será fundamental apostar na formação de quadros, para que se adaptem às novas tecnologias ou a novas funções.

Ou até mesmo contratar novos quadros com conhecimentos mais actuais e com experiência consolidada. Alguns dos grandes grupos já não se limitam a contratar nas universidades, tendo passado a investir nas mesmas, a participar nas suas actividades e a investir na investigação e desenvolvimento desde aí.

Mas, um dos principais desafios que as organizações enfrentam, é conseguirem acompanhar o ritmo evolutivo. Actualmente, já não existe a possibilidade de aguardarmos anos ou décadas por uma adaptação e consolidação a determinados avanços tecnológicos. Hoje, a palavra de ordem é “mudança” – mudança constante.

CW ‒ Como se prepara uma sociedade para a Indústria 4.0 e o impacto da inteligência artificial tendo em conta o potencial de desemprego que elas acarretam?

FC ‒ A sociedade actual deve pensar, fundamentalmente, em três aspectos. Os mais velhos deverão apostar na formação permanente, nomeadamente em funções que não sejam facilmente substituíveis pela robotização ou pela IA.

Os mais novos devem apostar em cursos com programas que interliguem a função com uma cada vez maior dependência das TIC e da IA. E todos devem procurar garantir níveis de poupança sustentados, que sejam complemento ou alternativa ao grau de suporte que possam, ou não, vir a ter dos sistemas de segurança social.

É verdade que o desemprego cria dependências e os rácios entre a população activa, a população desempregada e a reformada não atingem um equilíbrio.

Não querendo afirmar que a Indústria 4.0 vem aumentar os níveis de desemprego, podemos, porém, ter como certo que vem desafiar os Estados e as sociedades a uma nova forma de pensar a empregabilidade, a segurança social, a tipologia de impostos e os modelos de educação e formação.

CW ‒ Em que áreas devem focar-se os profissionais em termos de requalificação ou renovação do seu portefólio de competências?

FC ‒ Durante as próximas décadas, muitas profissões irão tornar-se obsoletas, ou estarão praticamente extintas, muito por força da robótica e da IA. A maior parte das quais são hoje consideradas profissões pouco qualificadas.

Isto leva-nos a pensar que, se a nossa dependência das TIC é quase total, também a nossa aposta em novas competências associadas a esta matéria deve aumentar de forma significativa. Já podemos encontrar vários sites, que nos ajudam a melhor compreender as profissões do futuro e as que vão cair num provável esquecimento.

CW ‒ A formação dos profissionais em cibersegurança é cada vez mais vista como uma maneira transversal de fazer face aos cenários evolutivos de ameaças. No quadro da Indústria 4.0 a cibersegurança ganha maior importância? Quais são as principais linhas de acção para garantir um grau adequado de preparação?

FC ‒ No panorama da Indústria 4.0, poder-se-ia dizer que se vamos estar ainda mais dependentes das TIC, também a cibersegurança ganhará maior importância.

No entanto, e tendo em conta a rapidez com que a IA ganha terreno, também existem correntes que defendem que os sistemas do futuro terão muito maior capacidade de autoprotecção e/ou defesa contra ataques e vulnerabilidades. É certo que as organizações terão de apostar em quadros qualificados e criar funções de liderança e de gestão em matéria de cibersegurança.

Neste momento, o foco das empresas deve recair no conhecimento da sua exposição e na construção de uma maior resiliência ao ciberrisco. É crucial definir uma estratégia de mitigação de riscos, acautelando os interesses do negócio, tanto os da própria organização, como de clientes e outras entidades com que se relacionem.

CW ‒ Qual é o impacto do actual cenário de ameaças no âmbito dos seguros contra ciberataques e fugas de dados? Que alterações são previsíveis para este ano? Preços mais elevados? O alargamento da sua abrangência?

FC ‒ O actual cenário de ameaças vai obrigar a mudanças tanto no lado da oferta, como no da procura. O mercado segurador está muito atento aos novos riscos e há cada vez mais soluções de seguro para os ciberriscos.

Começamos a ver, também, a revisão de condições existentes, que passam a incluir coberturas específicas de ciberriscos ou de protecção de dados, sejam em termos de danos ao segurado, sejam de danos a terceiros. Do lado da procura, vemos um interesse crescente e um aumento progressivo, mas ainda não exponencial, da aquisição de seguros neste âmbito.

Não há dúvida que a transferência destes riscos irá aumentar, acompanhando o impacto cada vez maior e mais recorrente de perdas sofridas pelas organizações. Relativamente ao preço, acreditamos que as taxas a praticar irão, também elas, acompanhar o factor “procura” e o factor “sinistralidade” – quanto maior for a procura e a dispersão do risco, menor poderá ser o impacto de futuros sinistros na definição do preço.

Não podemos esquecer que as medidas de mitigação e protecção poderão ser factor de contenção da frequência e da severidade de ataques ou perdas, estando nas mãos das organizações uma rápida adaptação a estes novos riscos.

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