O “blockchain” pode perturbar o sector bancário

Apesar das notícias, a tecnologia de “blockchain” tem um valor real no processo de compensação e de regularização, diz Paul McMeekin, responsável de “inteligência de mercado” na ACI Worldwide.

Paul McMeekin - CFOOs casos de uso dos pagamentos móveis, especialmente nos pontos de venda, ainda não são suficientes para atrair a maior parte dos proprietários de smartphones.

É um momento emocionante para a indústria de pagamentos; novas empresas e incumbentes estão a colocar muitos milhões de dólares e centenas de horas a melhorar a infra-estrutura de pagamentos.

E parece que não passa uma semana sem um grande banco a investir milhões numa startup de “blockchain” ou uma startup de “blockchain” a anunciar uma nova abordagem revolucionária. Mas o que é a “blockchain”? “É uma base de dados distribuída que mantém uma continuamente crescente lista de dados de registos protegidos de adulteração e de revisão”, segundo a Wikipedia. A “blockchain” é a principal inovação técnica por trás dos “bitcoins”, servindo como contabilidade pública das transacções desta moeda virtual.

É complicado separar o “hype” dos bitcoins da realidade, pelo que fiz alguma pesquisa. Os resultados? O “blockchain” tem um grande potencial e será disruptivo para modelos de negócio existentes. Isso, claro, parece óbvio e podia ter sido escrito há três meses. O que mais aprendi?

– As tecnologias “blockchain” públicas não oferecem a escala e a velocidade necessárias para atingir a adopção em massa para casos de uso de elevado volume.

– No entanto, uma rede privada, baseada em permissões desenvolvida sobre a tecnologia “blockchain” pode proporcionar um enorme valor para a indústria de pagamentos. [De acordo com a Bitcoin Magazine, uma rede com permissões é aquela em que “operações rápidas e baratas são permanentemente registadas num modelo partilhado – sem a abertura problemática da rede Bitcoin…”]

– As tecnologias são imaturas e a sua capacidade para suportar as necessidades desafiantes do negócio ainda não foram provadas. A minha opinião é que vai demorar entre três a cinco anos antes que haja uma adopção substantiva e impacto nos custos e receitas dos pagamentos.

– A tecnologia “blockchain” pode ser implantada nos actuais modelos de processamento de pagamento.

– O foco actual da indústria em movimento para os pagamentos em tempo real e, portanto, sobre o processo de compensação dos pagamentos, irá gerar interesse nestas novas tecnologias.

As autoridades públicas admitem que hoje há uma limitação nas transacções. Os sete a 10 segundos necessários para completar uma transacção são muito demorados para substituir a actual expectativa do consumidor de 25 milissegundos para um pagamento com cartão, mas para outros pagamentos é muito mais rápido e seguro do que esperar um a dois dias úteis.

Há vários casos de uso potencial, com muitos no mundo a activamente explorarem soluções em desenvolvimento. Eis alguns exemplos.

Banca “wholesale”
Compensação multipartes. Aplicando a tecnologia ao processo de compensação multipartes trará enormed benefícios. Os bancos e os seus clientes podem ter uma visão única dos saldos e das transacções. Actualmente, as partes têm de regularizar com as contrapartes individuais, criando uma teia complexa de fluxos de pagamentos. Estes fluxos de pagamentos ocorrem entre fornecedores, retalhistas e bancos intermediários e podem ocorrer em várias moedas. A tecnologia “blockchain” pode actuar como um sistema de compensação centralizado, simplificar a complexa teia de pagamentos e eliminar falhas e erros.

Dados/compensação imutável e comum. Um registo indiscutível, permanente, actualizado e distribuído de transferências, de exposição e de propriedade que é inviolável. O “blockchain” pode fornecer imenso valor nos pagamentos por atacado para bancos, clientes, e, potencialmente, para os reguladores.

Por exemplo, um “blockchain” privado pode restringir o acesso a essas entidades directamente envolvidas numa dada cadeia de fornecimento. Estas partes poderiam todas ver a mesma informação no “blockchain”. Essa informação pode ser números de facturas, recibos, documentos aduaneiros, etc. A principal função do banco numa transacção comercial actual é aceitar o risco; isto reduziria o risco para os envolvidos.

Banca de retalho
Atendimento ao cliente. Os benefícios irão resultar em melhorias na visibilidade dos dados/transacções e consistência nas várias partes, reduzir a complexidade e incidência de excepções e melhorar o acesso e visibilidade do estado de um pagamento em qualquer momento.

Transferência de fundos. As tecnologias “blockchain” podem ser aplicadas a uma variedade de cenários de pagamento. Num pagamento nacional de moeda única, o impacto pode ser para reduzir ou eliminar a necessidade de contraparte central e os atrasos na liquidação líquida ou transacção em tempo real. Quando aplicados a pagamentos transfronteiriços, os benefícios incluem liquidação em tempo real e alterar ou substituir a correspondente banca tradicional. Isto tornaria o processo de liquidação mais barato e mais rápido para os utilizadores do serviço de pagamentos.

Sou um apoiante do “blockchain”. Adoptado em pequenas redes ou mercados altamente segmentados pode trazer benefícios incríveis e verdadeiro valor comercial para a indústria de pagamentos. No entanto, o “blockchain” não está completamente pronto para adopção em massa para as transacções dos consumidores, embora o possa estar dentro de três a cinco anos. Entretanto, há um valor real em explorar a implantação de tecnologias “blockchain” nos processos de compensação e de liquidação.

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