O que os ISPs não querem que se saiba sobre a limitação de dados

Os grande operadores nos EUA querem que os clientes acreditem que a limitação dos dados em banda larga é necessária para gerir o congestionamento da rede, mas a sua verdadeira motivação pode ser mais sinistra.

Quando se compram 10 litros de gasolina, deve-se pagar mais do que quando apenas se compram cinco litros, certo?

Esse é o argumento que os operadores de acesso à Internet (ISP) norte-americanos Comcast e AT&T fazem para imporem limites de dados em mais e mais clientes de banda larga. As pessoas hoje usam muito mais dados do que nunca, dizem eles, e é justo que quem usa mais dados pague mais.

Mas há uma falha nesse argumento. “O custo de aumentar a capacidade [de banda larga] tem diminuído muito mais rápido do que o aumento do tráfego de dados”, diz Dane Jasper, CEO da Sonic, um ISP independente com sede em Santa Rosa, na Califórnia (EUA).

Jasper tem razões para desafiar os seus muito maiores rivais. No entanto, ele também sustenta o argumento com números reais. Há alguns anos, a Sonic (anteriormente Sonic.net) gastou cerca de 20% da sua receita em infra-estrutura. Desde então, o custo de “routers”, equipamentos de comutação e outros relacionados, diminuiu tanto que Jasper diz que os custos de infra-estrutura da empresa são agora apenas um pouco mais de 1,5% das suas receitas.

Por esta razão, a Sonic não tem planos para impor limites de dados, segundo Jasper.

A verdade sobre a limitação de dados em banda larga
Em Abril, a Comcast apresentou os seus resultados mais fortes em anos, superando facilmente as expectativas de Wall Street, enquanto acumulou um lucro de 2,13 mil milhões de dólares para receitas de 18,8 mil milhões. Jasper diz que as margens [de lucro] da Comcast sobre a Internet de alta velocidade são mais de 90%, e os cálculos de Bruce Kushnick, do New Network Institute, sugerem que essas margens na Time Warner Cable foram de 97% em 2013.

A Comcast pode aparentemente não impor limites de dados mas devem os chamados “glutões de dados” [“data hogs” ou grandes consumidores de dados] ter acesso livre? Afinal de contas, o uso de dados em alta velocidade coloca pressão na rede da Comcast e tem um custo para a empresa, certo? Não necessariamente.

No final do ano passado, um memorando interno da Comcast revelou que a limitação de dados não estava relacionada com o desempenho da rede. O memorando foi confirmado pelo porta-voz da Comcast, Charlie Douglas, que considerou que, “se se usam mais dados, há uma lógica para pagar mais”. Doutra forma, “não é justo para aqueles que usam menos”.

O memorando fazia parte de uma onda de protestos de clientes enfurecidos da Comcast, que teve efeito. Em Abril, a Comcast alterou a limitação de dados numa dúzia de estados nos EUA, de 300GB por mês para 1 TB. Os planos de dados ilimitados vendem-se agora por 50 dólares a mais por mês, e os clientes podem também comprar 50GB de dados adicionais por 10 dólares.

E o que tem a AT&T a dizer sobre o assunto? Os clientes do seu serviço U-verse podem pagar mais 30 dólares por mês para terem acesso ilimitado a dados em banda larga.

Porque é a limitação de dados má para os consumidores
Para a maioria dos clientes, um TB de dados será muito, mas há um princípio importante. Se os consumidores aceitam simplesmente os limites de dados em banda larga, a autoridade reguladora norte-americana das telecomunicações FCC, que está actualmente a investigar os ISPs, terá um menor incentivo para reprimir os que impõem [essas limitações]. Assim, não haverá nada para manter a Comcast e a AT&T ou as recém-fundidas Charter/Time Warner Cable de as baixarem ainda mais.

Porque iria um ISP fazer isso? Ganância, talvez, mas também porque temem que o “streaming” de vídeo vá entrar nos seus lucros de televisão tradicionais. Afinal de contas, a AT&T possui a DirecTV e a Comcast tem um enorme negócio de TV paga. Ambas querem proteger esses fluxos de receitas de outros [concorrentes], de acordo com Jasper, da Sonic. Se o “streaming” de vídeo ficar muito caro, vai abrandar esse movimento e incentivar as pessoas a ficarem na TV paga, segundo ele.

Jasper está certo. A limitação de dados é um aumento furtivo de preços, e é concebida para manter os consumidores vinculados a pagar aos fornecedores de TV.

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